sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ferido de morte

Não sei qual é o verdadeiro sentido da vida, mas sei qual era o sentido da minha. Um dia pensei ter encontrado o rumo, mas rapidamente perdi o norte. A dor que sinto é imensurável, jamais me senti assim. Pedem-me para lutar e, em silêncio, respondo: Para quê? Por quem? O golpe foi demasiado profundo, provavelmente fatal. A minha auto-estima, o meu orgulho, o meu ego está ferido de morte. Não estava preparado para perder. Mais uma vez não estava preparado para perder.
Tenho consciência que não é justo pedir-te que não sejas totalmente feliz ou que simplesmente deixes morrer a esperança, do retorno do teu amor do passado, a mesma que morreu em mim. Pedir-te que sejas infeliz ao meu lado apenas para me sentir feliz. Sei que não é justo, mas era isso que eu queria, apesar de desejar que sejas feliz, talvez por isso, sinto-me mal no meio desta ambivalência profunda. Por isso dói, mas ironicamente sinto algum prazer nesta dor. A dor que sinto dá sentido ao meu passado. Confirma que aquilo que sinto é verdadeiro e puro.
Todavia, como posso deixar de sentir dor se perdi aquilo que queria? Como posso deixar de estar triste se o meu sonho se foi? Como deixar de me sentir perdido se o meu rumo se foi? Como sorrir se a minha felicidade se foi?
Tudo isto confirma o meu arrependimento, dá sentido à minha culpa, por isso será justo, da parte das pessoas, pedirem-me para não ficar assim? E eu? Sim, e eu? Alguém sabe aquilo que estou a sentir? Alguém conhece o tamanho da minha dor? Não acredito.
Porém, pergunto-me será justo o que estou a fazer? Não sei. Provavelmente não. Todavia também não sei com quem estou a ser injusto. Contigo penso que não. Afinal de contas, não me tiraste nada, porque antes de te conhecer já nada tinha. Contigo apenas descobri e vivi o amor, o eterno amor. Aquele que não morre com o fim duma relação. Talvez seja por isso que estou triste. Conheci o paraíso e voltei ao meu mundo, aquele a que realmente pertenço: as trevas. Voltei ao mundo do sofrimento, ao mundo da dor, da dor que tal como o meu amor por ti, é imensurável. Voltei ao meu mundo.
Carrego um nó na garganta, um aperto no peito, uma dor na Alma, uma sensação de angústia e culpa permanente. Nada mais justo. Tudo isto é profundamente justo, uma vez que fui eu quem deitou tudo a perder. Agora estou simplesmente a sofrer as consequências, das minhas decisões e dos meus actos. Fui condenado à tristeza perpétua, sem direito a amnistias ou reduções de pena e, assim sendo, ficar num qualquer canto, numa qualquer esquina da vida, a cumprir a pena que me foi estipulada ou morrer é completamente indiferente, pois para mim porque já estou morto. Apenas me falta ser sepultado.
Tenho um desejo, desejo que me deixem estar só, num canto, distante de tudo de todos, onde não me sinto nem bem nem mal. Deixem-me estar sozinho, neste canto onde o nada e o tudo fazem sentido. Aqui posso estar longe, posso não fazer nada, posso não viver, aqui nada acaba porque nada existe. Posso recordar com saudade e tristeza, tudo aquilo que conheci. Aqui posso, simplesmente, desistir de caminhar porque nada mais me faz andar… aqui ninguém me dá razões para lutar, aqui ninguém me pede para viver, aqui ninguém me impede de morrer. Sou eu e só eu, sozinho, à procura de mim. Aqui talvez me tenha encontrado, descoberto o meu real valor: nenhum. Aqui não tenho que sair, pelo mundo, a bater de porta em porta, com uma lata velha mendigando amor, o eterno amor. Aqui sei que não o vou encontrar.
Aqui posso voltar a ser aquilo que sempre fui: ninguém. Aqui posso aguardar pacientemente o fim, por que, no fim tudo acaba bem e se porventura não acabar bem então não chegou ao fim. Sento-me e espero, espero que a morte me traga o fim, o fim que talvez me possa fazer sentir feliz, ou não, no entanto, a felicidade de estar noutro mundo.
Talvez no outro mundo possa não ser feliz, mas já nem isso importa, nada me importa. Como nada tenho nada é importante e isso faz toda a diferença. Dá sentido à falta de sentido que existe na minha vida. Dá vida à minha morte…
Aqui no lugar onde me encontro nada é tudo e tudo é nada. Aqui não existe o negro ou o colorido, aqui não existe o belo ou o malparecido, aqui não existe amor nem dor… aqui eu faço sentido porque nada existe e nada sou eu… aqui nada perco porque nada tenho.
No lugar onde me encontro, não me aborreço, não choro, nada faço, apenas espero o tempo passar. Não preciso de reagir. Não tenho que dizer sim, com os lábios, se o meu coração estiver a dizer não. Tudo aquilo que preciso dizer é: “seja feita a sua vontade”. Aqui aguento as consequências e as punições. Aqui sofro em silêncio. Aqui não sei de onde vim nem para onde vou. Aqui não sei onde estou… aqui a ferida poderá acabar por sarar, mas acabarei marcado para o resto da vida…que não tenho. Aceito a derrota e não tento transforma-la em vitória. Aqui sinto o amargo, a dor dos ferimentos, a indiferença dos amigos, a solidão, a dor da perda. Aqui digo a mim mesmo “lutei por algo, e não consegui. Perdi.”
Aqui não sou escravo dos meus sonhos nem livre nos meus pensamentos. Aqui nunca mais vou tentar tirar aos outros aquilo que não é meu… aqui Deus veio visitar-me, para me dizer “nada mais tenho para te dar”. Tentei dar-te o melhor que tinha, mas não te estava destinado. Nada tenho para te dizer, a tua dor é demasiado profunda e nada posso fazer. Deus sentou-se ao meu lado e disse: “Desiste filho. Nada mais podes fazer. Não existe mais caminho para percorrer. Chegaste ao fim. Senta-te e espera e volta a esperar, porque eu não tenho para onde te levar, até que alguém ou a morte te venha buscar”.
Aqui no lugar onde me encontro talvez só tu me possas vir buscar…

9 comentários:

MARY disse...

O mundo não acabou!!!
Não deixes que a tristeza tome conta de ti!!! Há muito mais pra viver! E depois há que viver todo o tipo de experiências!! então???!!! não é assim que se aprende!!

goto muito tu

Ricardo Veloso disse...

Ola Mary
Obrigado. Eu tambem goto muito tu e tu sabes isso...
São três anos e tal a "aturarmo-nos mutuamente:-)"

Su disse...

Revolta, frustação, saturação, sensação de perda,... tudo isto e muito mais passa por nós ao longo da vida!! Como este, muitos mais textos regem a vida de inúmeras pessoas! Acredita que não és o único na espera, ao teu lado está uma multidão que aguarda, ansiosamente, e desespera em silêncio...

Pedro disse...

boas...esta mensagem faz lembrar quando uma pessoa necessita de conselhos...( futebol)...e voce la esta para ajudar...deixamos de nos questinar e sim de tomar o rumo ao trabalho..obrigado por tudo..grande abraço

Ana Rita disse...

"...o meu real valor: nenhum."
"...aquilo que sempre fui: ninguém." Palavras como estas já fizeram parte do meu vocabulário. Eram palavras sentidas, mas sem sentido algum.
Não há nada que não tenha valor, assim como todas as pessoas são um alguém.
Gostem ou não existimos e temos um valor, elevado para alguns, mas nem tanto para outros.
Mas o verdadeiro valor somos nos que o definimos, esse sim é o valor real, aquele que ninguém pode conseguir reduzir, porque nós somos um alguém com valor.

Marlene disse...

Muito triste e profundo este texto. Sei quanto sofreste com essa relação, mas sei quando foste forte e capaz de dar a volta. Feriram-te mas não te mataram e essa será uma lição de vida que me marcará para a vida. Só eu sei o quanto me inspiras com este texto, apesar de dramático e duro. Como tu dizes "é nas grandes batalhas que morrem os lutadores e é nelas que sobrevivem os guerreiros. Manco é certo, mas vivo!"
Afinal o que mais importa não é como voltamos é o que conquistamos!
Beijinhos

Edgar Veloso disse...

Sei bem o que passaste nesta altura e por isso admiro a forma como te levantaste.
Força mano.

Diana disse...

Olá...

Ninguém nos pode ir buscar onde quer que estejamos, com dor ou sem dor. Parte de nós sair dela, dar a volta por cima e voltar a encontrar a alegria, e encontrar o amor, talvez... Aliás, não podemos esperar por minguém nem podemos exigir a ninguém esse "salvamento".

Ps: Ninguém sente a tua dor e a sua intensidade tal como tu a sentes e isso é indiscutivel.

Bj

Ricardo Veloso disse...

Diana,

Concordo em absoluto com a tua perspectiva do "não podemos exigir esse salvamento a ninguém", mas que, por vezes, gostaríamos de ser salvos, lá isso gostaríamos, quase todos.

Beijokas